terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A Prenda


Naquela sexta feira ao fim da tarde havia uma azáfama muito grande na casa da Joana. A mãe a correr pelo corredor perguntava a tia Beta: A encomenda da pastelaria do tio Zé. Será que já esta pronta? Deve estar! O tio Zé é um bom pasteleiro e não nos vai deixar mal. Disse a tia Beta.
A Joana ainda estava na escola. Mas já adivinhava que iria ter uma festa quando chegasse a casa. Era o seu aniversário. Na escola os colegas tinham-lhe dado os parabéns. Fazia oito anos. Já a um ano que não fazia anos! Gostava sempre do dia do seu aniversário. Era nesse dia o centro das atenções. Ainda mais o centro das atenções. Gostava dos elogios que recebia: Joana esta mais alta; Que crescida que estas; Já estás uma senhora.
Joana era uma menina muito voluntariosa. Quando a professora lhe dizia para fazer uma redacção, ela fazia-a com desembaraço. Quando noutras alturas tinha que fazer “contas” de somar ou de subtrair ela também as fazias rapidamente. No entanto, a maioria das vezes estavam erradas. Na ânsia de ser a primeira a fazer as coisas não tomava atenção as regras de somar e de subtrair nem as regras de escrita. Ficava muito zangada por se ter enganado! Não ela ficava zangada mas porque a professora lhe dizia que estava errada. Era uma menina muito presunçosa.   
Naquele dia a professora tinha comunicado a turma que deveriam fazer uma redacção cujo tema era o aniversário. Hoje, meninos vão fazer uma composição que tem como tema o aniversário. Cada um vai fazer uma descrição do seu dia de aniversário. Devem dizer como correu o vosso dia de aniversário. Professora? O meu aniversário é hoje! Disse a Joana toda inchada. Eu sei que é, Joana. Mas como ainda não acabou o teu dia vais fazer a descrição do teu dia de anos do ano passado. Poderão por como titulo o meu sétimo aniversário. Professora? Mas eu já fiz oito anos! Disse o Pedrinho. Então escrevam sobre o último dia de anos. Esta bem?
Todos os meninos começaram a fazer a sua composição, menos a Joana. De cabeça no ar pensava como será hoje o seu bolo de anos. Que prendas iria receber dos tios e dos pais. E nada a fazia concentrar. No mundo da lua a encontrou passado algum tempo a professora. Joana? Então não começas a composição? Deixa de estar a pensar no dia de hoje e faz a composição que eu mandei. Sim professora. Disse a Joana.
Mas na cabeça da Joana apenas passavam ideias: como será o bolo? Que prendas irei receber? Que surpresas irei ter ao chegar a casa?
O tempo foi passando e a Joana nem uma linha ainda tinha escrito. O Pedrinho, da carteira de traz disse-lhe: Joana escreve a composição se não a professora zanga-se contigo. E não vais ao recreio! Está calado. Deixa-me em paz. Tenho mais em que pensar. Depois diz que eu não te avisei?
Joana continuava com as suas ideias. E pensou que não devia convidar novamente este ano o Pedrinho para o seu aniversário. Ele estava sempre a importuna-la com coisas. Era um chato.
Chegou a hora do recreio e a Joana, tal como o Pedrinho lhe tinha dito, teve que ficar na sala a fazer a composição. Viu todos os seus colegas ir brincar. Ela também gostava de brincar. Em especial quando fazia de princesa com as suas amigas. Ou então quando era ela a mandar fazer coisas aos outros. Fazia todos os possíveis por ser ela a escolher os jogos. Era ela que liderava as brincadeiras. Por vezes inventava jogos só para ser o centro das atenções. Era sempre ela, a que escolhia as brincadeiras. Se não fosse assim não jogava. Os seus amigos deixavam-na. Não queriam que ela ficasse sozinha num canto. A professora tinha-os ensinado a não deixar ninguém fora das brincadeiras. Todos tinham aprendido de forma correcta esse ensinamento. A Joana também tinha aprendido, mas a sua maneira. Fazia já chantagem com os seus colegas. Eles inocentes seguiam-na para todo o lado. A professora não se apercebia disso. Nesse dia os colegas ficaram desorientados. Não sabiam que jogos fazer. Era sempre a Joana que os incentivava a fazer um jogo e não outro. Era ela sempre que mandava nos outros. Nesse dia no entanto a Joana tinha que ficar sem recreio pois não tinha cumprido a tarefa.
Sozinha na sala, Joana sentiu-se pouco a vontade. Nunca tinha estado sem recreio. Pensou que a professora tinha sido severa demais consigo. Por apenas não ter feito a redacção. Lembrou-se que há uns dias atrás se tinha zangado com a Paula por não ter feito aquilo que ela queria. Empurrou-a com tanta força que a pobre rapariga caiu e partiu um dente. Quando a professora chegou todos os seus colegas disseram que a Paula tinha caído quando andava a correr. Tinham dito isso para não ver a Joana de castigo. Não esperava outra coisa deles. Caso não tivessem feito isso, não os convidava para a sua festa. E eles queriam ir muito a festa. Só o Pedrinho não tinha dito nada. Esteve calado todo o tempo. Nem mesmo quando a Paula foi levada para o centro de saúde, nada disse também. No entanto nesse dia mais tarde ouviu-o comentar com os outros colegas que aquilo não se fazia. Que estavam a ser mentirosos e que ela estava ser muito egoísta e mentirosa por não ter contado a verdade nem ter deixado ninguém contar a verdade. Mais uma vez o chamou de chato e disse-lhe que por isso não o convidava para a festa.
            Sozinha e não sabendo como fazer a redacção foi á carteira do Pedrinho para lhe rasgar a redacção. Reparou que a letra era muito bem-feita. E começou a ler.
“ Vou contar em poucas palavras o meu sétimo aniversário. De manha quando acordei ao som do despertador a minha mãe já estava ao pé de mim para me dar os bons dias e me desejar um feliz aniversário. Nesse dia trouxe-me o pequeno-almoço a cama. Era um pouco melhor que o dos outros dias. Tive direito a leite com chocolate e pão com fiambre e manteiga. Contou-me, como sempre a mesma história. Que o meu pai era muito trabalhador. Que um dia foi para o mar e nunca mais voltou. Que ela não esta zangada com o mar. Apenas tinha é saudades do meu pai. Abraçamo-nos e fomos cada um para os nossos afazeres. Ela para a pasteleira do tio Zé e eu para a escola! Na escola a única que me dei os parabéns foi a professora. Era a única que sabia que eu fazia anos. Fiz todos os deveres da escola o mais rápido possível. Depois fui para a pasteleira ajudar no melhor que sabia a minha mãe. A noite tive direito aos bolos que não se venderam e que o Tio Zé ofereceu a minha mãe porque ela lhe tinha contado que eu fazia anos nesse dia. Foi assim o meu sétimo aniversário! “
Joana ficou comovida com a redacção do Pedrinho. Pensou no presente que Pedrinho lhe tinha oferecido o ano passado por altura do seu aniversário. Era apenas um pequeno cartão feito por ele a partir de um cartão velho e onde colou um desenho do mar e um barco de pesca e algumas gaivotas a esvoaçar. Nele tinha escrito com uma letra bonita “Feliz aniversario Joana”. Lembrou-se que não o tinha convidado para a festa e que ao chegar a casa tinha deitado fora o cartão. Sem hesitar pousou o papel da redacção e foi a correr para o recreio. Fez o convite ao Pedrinho. Ele sentiu-se feliz. Ia a um aniversário a serio.Com prendas e tudo. E com um bolo de aniversario enorme. Pensava ele, tendo em conta o número de meninos que iam estar lá. Desatou a correr para dentro da sala. Joana atrás dele sentia-se feliz também. Pedrinho tirou de dentro da sua sacola o cartão que tinha feito e entregou-o a Joana. Ela agradeceu. Voltaram outra vez para o recreio. Joana não se lembrou mais da composição. Mas o que aprenderá era mais importante que a redacção. A professora tinha sem querer presenciado toda a cena. E como já tinha lido a redacção do Pedrinho nada disse. Quando recreio acabou a Joana tinha um trabalho extra. Duas redacções para fazer em casa. Uma do seu sétimo aniversário e outra do seu oitavo aniversário. A partir desse dia Joana tornou-se menos presunçosa e um pouco mais atenciosa para com os seus colegas. E quando exagerava bastava olhar para Pedrinho para ver que estava a fazer mal. Imediatamente corrigia-se. 

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